Aprendendo a Não Saber.
Começar antes de se sentir pronta e honrar o sagrado lugar de aprendiz — um jeito revolucionário de existir.
— Are you ready to be a mum?
Tudo começa com essa pergunta pousando inesperadamente no mundo real me tirando do lugar-real-outro onde eu estava encontrada.
Confesso que não sei por quanto tempo eu estava sendo observada por aquela mulher que, assim como eu, também havia pegado o ferry às 8:30 da manhã de terça em Rafina, um dos portos de Atenas, e estava cruzando o Golfo de Petalioi rumo a ilha de Evia.
Ao que tudo indica ela é uma moradora local.
E ao que tudo indica a minha barriga já está tão grande que pessoas desconhecidas deduzem que eu estou grávida e não que eu comi muito e estou falando sozinha.
Também não sei a quanto tempo eu estava fora desse mundo habitado por todos nós, mergulhada no mais profundo do meu corpo-casa que agora é morada de dois, percebendo com uma presença radical cada um dos movimentos variados desse serzinho que no meu ventre baila e conversando com ele (ou será ela?) ora em inglês, ora em português, arriscando uma ou outra palavra em polonês misturada no meio de frases que só fazem sentido para nós.
— Você tá pronta para ser mãe?
Ela, a mulher desconhecida que me observava papear com a minha barriga, atravessa a nossa prosa íntima querendo saber.
A resposta estava tão na ponta da língua que eu me assombro com a velocidade com a qual ela sai de mim. O conteúdo da minha resposta no entanto, não me assusta nem um pouco.
Afinal, muito antes de engravidar eu já tinha feito as pazes com a ideia de que eu nunca estarei verdadeiramente pronta para nada, pelo menos não do jeito que entendemos o conceito de se “estar pronto” que pressupõe que todas as dúvidas já foram solucionadas, as respostas já foram encontradas, os medos já foram apaziguados e que sabemos o suficiente para não falhar, não desapontar ninguém e não cometer erro algum.
— I don’t think so, but I’m happy to learn.
Respondo serena.
Eu que adoro uma boa prosa com estranhos nascidos em outros cantos do mundo vivendo realidades bem diferentes da minha, dessa vez escolho não render o assunto e aproveitar a meia hora que ainda nos resta antes de atracar no porto para esticar as pernas e observar a vida acontecer no mar. Atravesso a embarcação, que é dessas bem grandes que leva além de passageiros, mulheres grávidas, carros e caminhões, bem vagarosa, prestando atenção nas gaivotas e no barulho de mar, e quando enfim chego do outro lado paro perto de uma família de turistas que também visita Evia pela primeira vez.
Dessa vez sou eu que os observo e escuto de canto de orelha um tanto da conversa íntima alheia.
Pai e filha-mais-velha conversam sobre pássaros que viajam longas distâncias ao migrarem de um canto pro outro em busca de temperaturas mais altas e comida abundante.
Mãe e filho-mais-novo vivem um impasse.
— How do I open this, mummy? O filho pergunta impaciente enquanto tenta abrir umas das caixas de metal que estão enfileiradas na lateral do ferry.
— I don’t know, honey. Let’s find out?
A mãe responde com calma.
Daqui do meu mundo fico pensando com os meus botões que ainda que, ao engravidar, essa mãe não se sentisse pronta para maternar ela aprendeu e continua aprendendo uma das mais belas e revolucionárias artes que foi esquecida pela maioria de nós humanos modernos.
A embarcação atraca no porto, descemos até o porão onde todos os carros estão estacionados, pegamos o nosso que foi alugado em Atenas e começamos nossa aventura nessa que a segunda maior ilha da Grécia; antes de mergulhar no presente para desfrutar de cada minuto desse dia que começou cedo e terminará tarde, tiro o telefone da mochila, abro o bloco de notas e escrevo as três indagações que são o ingrediente principal na feitura desse bálsamo:
Como sustentar o lugar de aprendiz em um mundo que só valoriza os experts?
Por que devemos começar muito antes de nos sentirmos prontas?
Será que se aprendêssemos a arte de não saber, automaticamente resgataríamos a leveza, a curiosidade e o encantamento entrelaçados a possibilidade de descobrir?
Fecho o bloco de notas, abro o GPS, volto para as férias com gosto de aventura e pegamos a estrada. E como não sou eu que estou atrás do volante, ao reclinar o meu assento fecho os olhos e em oração peço a Vida que se encarregue de colocar as respostas no meu caminho enquanto eu me ocupo em estar atenta ao caminho vivido.
Você não está pronta.
Se eu tivesse que escolher uma única palavra para definir a minha década de vinte a palavra escolhida certamente seria Insegurança.
Insegurança com i maiúsculo marinada no medo de não ser e não saber o suficiente.
Eu não deixei de viver, não deixei de tentar, de arriscar e de buscar realizar muitos dos sonhos que eu tive, mas ainda que muito tenha sido realizado e vivido um outro importante tanto nunca saiu do papel e não se fez realidade simplesmente porque a todo momento uma voz gélida sussurrava no meu ouvido me dizendo ..
Você não está pronta. É melhor esperar mais um pouco até que isso ou aquilo tenha sido vivido, estudado, alcançado, conquistado ou aprimorado.
Imagino que você conheça essa voz e que ela converse ou já tenha conversado com você. E imagino que você saiba bem o quão convincente ela sabe ser.
Alguns a chamam de Sabotadora.
Eu a chamo de eco. Um ruído não nascido no nosso interior e sim produzido nos nossos arredores pela cultura do nosso tempo que segue reafirmando um lugar de eterna insuficiência; um barulho vindo de fora que ao encontrar o solo fértil da insegurança no nosso mundo interior faz morada em nós.
A hora certa para realizar muita coisa que eu desejei viver nunca chegou porque na espera por estar e na preparação para estar pronta eu perdi as forças, o ânimo ou a hora oportuna e deixei que a minha insegurança misturada a esse eco falassem mais alto e desvitalizassem o meu desejo. E ainda que eles não tenham sido capazes de me definir por completo eles foram sim capazes de me aprisionar por muitos e muitos anos e me distanciar de algumas tantas experiências que eu secretamente desejava viver.
E foi na sagrada virada dos vinte pros trinta, quando Saturno faz a volta e uma nova camada de madurez parece naturalmente assentar na nossa pele desenraizando a força desse eco, nos transformando a olhos vistos e tirando de nós muitas das dúvidas que até então ocupavam o lugar central das nossas questões existenciais, que eu encontrei a palavra-chave que me tiraria de vez desse aprisionamento e me permitiria começar a materializar os maiores sonhos por mim já sonhados.
Que palavra é essa? Você me pergunta.
Uma das mais belas do dicionário que na teoria anda na moda mas que na prática segue sendo raramente avistada:
Vulnerabilidade.
Foi a permissão que eu mesma me dei para me conhecer e para me mostrar vulnerável que, vagarosamente numa construção lenta, me tirou dos braços do meu auto-aprisionamento e começou a me mostrar as minhas maiores forças. Foi a permissão que eu me dei para não ter tudo resolvido, sabido ou entendido e para não precisar ter primeiro o selo “pronta para” estampado no meu falso peito de aço para só então dar os primeiros passos rumo a uma nova aventura ou empreitada que me trouxeram pro abraço-acalento do estado onde eu agora me encontro. E foi a permissão que eu me dei para abrir os olhos para o sagrado lugar de aprendiz que me fez encontrar aquilo que ao aprender eu poderia também ensinar.
Quando alguém me pergunta se eu estou pronta para ser mãe a única resposta honesta é a de que não eu não estou e certamente também não estarei ao parir ou ao amamentar ou ao educar uma criança dos primeiros passos rumo aos passos da vida adulta. Porque como é possível se estar pronta para se fazer infinita e assistir o afrouxar visceral de cada uma das fronteiras que nos fazem tão cheias de nós, preenchidas exclusivamente pelo nosso universo particular e pela nossa própria individualidade?
Eu não estou pronta para ser mãe assim como não estou pronta para ser constantemente atravessada pela imprevisibilidade da vida. Também não estou pronta para os desafios que me esperam no horizonte, para as questões não resolvidas que serão paisagens no meu futuro e para atravessar os labirintos e metamorfoses que me moldarão ao longo dessa jornada chamada vida.
O que eu sei é que estou feliz em aprender e ainda mais feliz por ter a oportunidade de descobrir como me expandir cada cada vez mais, como seguir caminhando meus próprios passos e errando os meus próprios erros rumo a realização do que eu desejo, com presença, viver e fazer acontecer.
Das poucas certezas que eu carrego no peito, uma delas é essa aqui ó:
Para bailar o baile da vulnerabilidade, que é quem nos possibilidade experimentar na pele a verdadeira liberdade de sermos nós mesmas, nós precisamos nos permitir ser um processo inacabado e o caos de uma obra de arte em construção; e esse suculento baile requer que a gente se rebele contra tudo e todos que nos exigem “estarmos prontas”, inclusive nós mesmas, caso ainda estejamos em busca de alcançar esse estado de prontidão antes de mergulharmos fundo naquilo que desejamos viver, criar, materializar e realizar no solo fértil do presente.
Todo aprendiz ou amador, aquele que faz com amor, precisa aprender a arte de não saber e fazer as pazes com a ideia de se assistir ser e de se mostrar vulnerável sem a proteção da armadura vestida pelo expert — que o coloca no lugar da inquestionabilidade de saber tudo sobre um determinado assunto.
Os melhores professores são os que se permitem serem eternos aprendizes enquanto compartilham seus saberes e descobertas. As melhores mães são aquelas que se permitem serem eternas aprendizes enquanto compartilham seus saberes e junto com suas crias ampliam suas descobertas. Errar, falhar, não saber e se perder ao pegar a trilha errada faz parte da aventura sem GPS que viemos aqui viver.
Assim penso eu.
Exatamente quando começo a achar que talvez dessa vez a Vida não me trará respostas a tempo de publicar esse bálsamo ela me coloca num posto de gasolina de beira estrada, numa das urgências de mulher grávida por encontrar um banheiro para fazer xixi e aliviar a pressão no ventre que incomoda mamãe e bebê. Entro na fila do caixa para pagar pela garrafinha de água mineral que decidi comprar e na minha frente está uma mãe com uma criança de mais ou menos uns quatro anos - meu palpite é que eles também são turistas, e pelo sotaque, britânicos.
O menino pede pra mãe comprar uma guloseima qualquer que vem dentro de um plástico duro em formato de ovo, um kinderovo moderno sem chocolate e provavelmente também sem lembrancinha.
Ela decide atender o pedido da criança.
E enquanto ainda está ocupada finalizando o pagamento, o filho impaciente pergunta:
— Mummy, how do I open this?
A mãe com serenidade responde:
— I don’t know, honey. Give me a moment and we’ll find it out together.
Um sorriso dos largos se estampa no meu rosto.
E não é que a vida já tinha me oferecido a resposta no mesmo dia em que me presenteou com as perguntas.
Se estamos prontas?
Eu não sei.
Provavelmente não.
Mas que tal descobrirmos enquanto tentamos?
É assim que eu tenho escolhido viver, maternar, escrever e criar - e é essa a revolução que eu proponho que você também viva.
Com um afeto radical,
Verbena Cartaxo
quem te escreve?
Verbena Cartaxo é costureira de palavras, alquimista dos sentidos, ex-bailarina eterna mulher movimento, mãe de uma neném de olhos azuis metade brasileira metade polonesa que há cinco semanas saiu do forninho, dona de casa que se recusa a usar aspiradores de pó e voa de vassoura, capitã da Prosa e a mulher intencionalmente desacelerada que jardina as terras férteis da Vagarosa — uma publicação patrocinada por suas leitoras. Desde 2019 publica sua escrita de forma independente, facilita vivências com foco no despertar da sabedoria do Corpo e guia mulheres ao redor do mundo de volta pro abraço-casa de suas Naturezas Selvagem.







O melhor de não saber é ser a eterna aprendiz do seu não saber.
Amo sua costura de palavras, V.
Nó!!!! Uma vez mais, Gracias Verena!!!
Esse texto chegou realmente como um bálsamo! Veio certeiro no meu maior aprendizado dessas últimas semanas, confiar no não saber e descobrir as potencias que essa entrega abre! Tenho vivido isso no meu campo artístico profissional e tenho colhido com concretude na experiência os frutos do não saber… e já estando aí chegar aqui e ler “muito antes de engravidar eu já tinha feito as pazes com a ideia de que eu nunca estarei verdadeiramente pronta para nada, pelo menos não do jeito que entendemos o conceito de se “estar pronto” que pressupõe que todas as dúvidas já foram solucionadas, as respostas já foram encontradas, os medos já foram apaziguados e que sabemos o suficiente para não falhar, não desapontar ninguém e não cometer erro algum.” Me encheu de fé na maior empreitada que estou humildemente me entregando não sabendo o que, como, quando e se virá… não sei, mas sigo entregando meu coração vulnerável ao desejo de engravidar novamente! E esse seu texto chegou como uma piscada do Universo to keep going pq o não saber is the right track! ♥️
Gracias!